

Por Angélica Bito
Gregório de Mattos Guerra, advogado e poeta, nasceu em Salvador no dia 7 de abril de 1623. Sua figura, como poeta e agitador cultural, encantou a cineasta Ana Carolina. Depois do sucesso de Amélia (2000), ela volta em Gregório de Mattos, que estréia no próximo dia 16 em São Paulo, Belo Horizonte e Salvador.
Gregório de Mattos é um filme despretensioso, cuja força está calcada nas interpretações e no texto contundente, baseado em poemas de Gregório, também conhecido como “Boca do Inferno”. O apelido veio graças às suas críticas ao poder vigente em um Brasil que estava apenas engatinhando em sua evolução. O objetivo não é apresentar sua vida. Mesmo porque não se sabe muito sobre ela. O que se sabe, ficou registrado em seus poemas, altamente críticos, refletindo o que se passava dentro e ao redor do poeta. Obra e vida se confundem em uma figura única na literatura brasileira.
Gregório de Mattos é quase uma volta de Ana Carolina ao cinema documental, que teve início com Getúlio Vargas, em 1974. Desde então, a cineasta se concentrou em filmes cujas figuras centrais são mulheres. Seu último filme, Amélia, foi sucesso de público. Quase totalmente falado em francês, não se parece em nada com Gregório de Mattos, mais simples e totalmente apoiado no texto e nas interpretações.
Ao lado de atrizes experientes, como Ruth Escobar e Xuxa Lopes, Ana Carolina nos traz uma Marília Gabriela surpreendente, forte e expressiva. Waly Salomão, na pele do poeta, mostra a efervescência de idéias em Gregório de Mattos, mostrando uma figura que vagava pelas ruas da Bahia, entre freiras e escravos. Desenvolto, desafiava por meio de suas palavras toda forma de poder, seja ele político, religioso e - por que não? - sexual.

Com 72 minutos de duração, Gregório de Mattos pincela algumas passagens da vida do poeta e sua poesia, um traço da cultura brasileira que acabou perdida no tempo.
Por que Gregório de Mattos?
Na verdade, não sei muito bem. Sempre li Gregório de Mattos. Minha trajetória literária e cultural passa pela poesia, não dá para ficar sem ela. Conheci Gregório de Mattos quase que naturalmente, do mesmo jeito que conheço a poesia brasileira e a portuguesa. A princípio, o filme teria de 15 a 20 minutos, mas fiquei empolgada. Levantei mais apoio cultural e fiz um filme barato (seu orçamento não chegou a R$ 400 mil), mas um longa, com elenco excepcionalmente estranho, mas excepcionalmente bom. O Gregório, que é o Waly, não é um ator, é um poeta baiano detonado, uma pessoa que traz o norte da Bahia - o norte no sentido da navegação mesmo -, ele é o norte do filme. As mulheres são todas amigas minhas e deram um suporte dramaticamente muito bom.
Como foi a caracterização do Waly como Gregório de Mattos?
Tenho quase certeza de que o Waly é a reencarnação do Gregório. Então, não caracterizei o Waly como Gregório. Peguei o Waly como um norte para mim, porque não sou baiana e o Waly é um poeta baiano de uma geração detonada, a mais criativa que o Brasil teve depois da geração de 45. A geração de 68, que é a do Waly, foi um marco na história, com pessoas de uma lucidez quase louca. E o Waly é isso mesmo que você vê no filme. Só coloquei nele uma roupa de época. Ele não vai ser degredado para a Angola, mas atrapalha pra caramba, como o Gregório.
Atrapalha como?
O Waly é uma voz que dá um ruído na cultura brasileira. É uma pessoa que fala o que dá na cabeça, o que é ótimo.
Foi difícil trabalhar com uma pessoa assim?
Não, ele faz bem para a saúde porque você tem de ficar absolutamente em alerta. E isso é bom.
E a escolha da Marília Gabriela?
Ela é minha amiga, com muitas características de boa atriz. Vi o espetáculo que ela fez da peça do Beckett (Esperando Beckett, dirigida por Gerald Thomas) e tive a consciência de que ela poderia fazer este filme. Perguntei se tinha interesse no papel e ela topou. Já a Ruth (Escobar) é uma atriz formada, com um gabarito espetacular.
Por que você acha que o Gregório de Mattos é uma identidade cultural brasileira?
Ele é a personificação do perfil do brasileiro. Formulou isso tanto na poesia quanto na vida que levou. Uma pessoa cheia de contradições, um homem amoroso e violento, desobediente; tudo que ele tem, nós temos. Mas, principalmente, o luxo do Gregório de Mattos é que ele formulou poeticamente o caminho da literatura e da poesia brasileira. Os nossos melhores poetas e escritores passaram por Gregório de Mattos. Se você analisar seriamente sua poesia, verá que a modernidade que o Brasil poderia apresentar na poesia até hoje, passando pela Semana de 22, pelos parnasianos… Tudo isso passou pelo pedágio do Gregório, porque ele tocou em todos os pontos que dão a identidade do homem brasileiro.
Hoje em dia, faz falta uma figura como ele?
Sempre faz. A gente está sempre precisando de uma porta-voz para nossas reivindicações, nosso amor e ódio pelo Brasil. Isso precisa ser dito, pensado, gritado, esperneado. Isso era Gregório de Mattos e hoje temos muito pouco desse espírito.
Você apontaria alguém, hoje, que tente exercer esse papel de porta-voz?
O Caetano (Veloso) é um homem que ainda está na proa desse navio. É o grumete, ainda, pois esse navio está indo por um mar aberto - a gente não vê quem está navegando nesse barco chamado Brasil. O Glauber (Rocha) era um, mas nossa cultura está ficando cada vez mais indefinida. São grumetes da alma brasileira.
Você acha que isso é conseqüência da forte influência que vem de fora?
O mundo mudou. Essa indefinição não é mais chamada de indefinição e sim de globalização. Essa coisa rápida, instantânea e, principalmente, essa névoa no continente latino-americano não é mais névoa e sim poluição.
Como cineasta, você se vê no papel de tentar resgatar uma identidade brasileira?
Não tenho essa pretensão. Ao contrário, o filme é despretensioso, sob todos os aspectos: financeiramente, dramaticamente… Ele é um filme simples, que eu faria em 1968, mas não tinha maturidade. Não tenho pretensões de ser um arauto da luta brasileira, não dá.
Qual foi o objetivo: apresentar a vida ou a poesia de Gregório de Mattos?
Apresento traços da vida de Gregório de Mattos, porque não se sabe muita coisa dele. Sabe-se que ele nasceu em Salvador e com 11 anos foi embora para Lisboa, onde se formou em Direito e se casou. Trabalhou para a corte portuguesa e, depois de perder sua mulher, voltou para Salvador, aos 44 anos, onde fez a maior parte de seu trabalho poético. É degredado para a Angola, volta três anos depois e morre em Pernambuco. Ou seja, a vida dele está perdida no tempo. Na verdade, ele é um pouco como Shakespeare. Algumas pessoas falam que, talvez, toda a obra de Shakespeare nem tenha sido escrita por ele. Ele é, na verdade, um personagem emblemático da Inglaterra. Gregório é uma coisa emblemática da poesia e da literatura brasileira. Talvez, nem todas as poesias que estão condensadas em dois ou três volumes, como sendo dele, talvez não sejam, mas é o único cronista e poeta que nos deu o retrato daquele Brasil que estava apenas começando. O Brasil tinha 130 anos, imagina, não é nada, não é? É ele o titular da brasilidade.
O filme chamava, originalmente, Gema a Quem Gemer, ou o Pouco Que Se Sabe de Gregório de Mattos. Portanto, não tenho a pretensão de mostrar a vida dele porque não sei nada sobre isso. O que sei é da poesia dele e o que se fala no filme é sobre isso.
Como você selecionou as poesias que entraram no filme?
Ninguém agüentaria um filme de duas horas com poesias faladas em português sessentista, então, juntei no máximo 20 poemas. Dei rápidas pinceladas em vários lados do Gregório: espiritual, amoroso, erótico, político. No filme, temos uns quatro ou cinco Gregórios, não mais, para dar um perfil rápido do poeta.
Quanto tempo demorou para você selecionar os textos?
A escolha foi muito natural, orgânica. O que bateu em mim, bateu no filme.
Por que o uso da fotografia em sépia, tão atípica nos filmes atuais?
Para dar essa cara de tempo. Foi uma escolha dramática. Não queria que fosse um filme com cores tropicais, felizes. É uma cor do passado. A atualidade não é a imagem, e sim o texto.
Quanto tempo o filme levou para ser feito?
A filmagem durou seis meses. É a primeira vez na minha vida que finalizo um filme em sete meses. O que é ótimo porque você fica livre daquele “ovo” rapidamente.
Como você se sente com a exibição de todos os seus filmes em uma Mostra em São Paulo, na Cinemateca?
Acho legal, me dá um sentido de minha existência profissional.
Como você faria um balanço de sua carreira?
Ainda não dá para fazer… é pouco para fazer um balanço.
E os projetos futuros?
Têm vários, mas nunca falo de projetos futuros porque sou supersticiosa. Preciso ter saúde para fazê-los, mas tenho muitos projetos. Ainda tenho muita vontade de fazer mais cinema.
Patrocinadores de Gregório de Mattos: Governo da Bahia, Bahiatursa, Fundação Gregório de Mattos, Odebrecht, Pestana Hotels & Resort, Nordeste, Bradesco, BNDES, BRAsKem, Prefeitura do Estado do Rio de Janeiro - Secretaria da Cultura.