Arquivo de fevereiro de 2008

Prorrogado o prazo de Inscrição

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

 

Tendo em vista a dificuldade e atraso na implantação do sistema de cobrança das inscrições do II ENLLIJ, a Coordenação do Evento prorrogou até 29.02.2008 o prazo para Inscrição de Trabalho Científico, de Projeto de Leitura no II Prêmio Zélia Gattai Amado e no FEST&SOL.
Maiores informações procure a Secretaria do II ENLLIJ.

A Coordenação

www.celeitura.com.br/enllij

73-3528-9646

A Escola Parque… um pouco de história

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

 

O nascimento da Escola Parque

No final de década de 40, o então governador da Bahia, Otávio Mangabeira, solicitou ao seu Secretário de Educação e Cultura, Anísio Teixeira, que elaborasse um sistema para resolver a crescente demanda por vagas nas escolas públicas.

Paralelamente, àquela época precisava-se urgentemente de novos currículos, novos programas e novos professores. Anísio Teixeira providenciou tudo num trabalho hercúleo de quase 16 horas por dia. Conseguiu criar a primeira célula - o modelo de Salvador - e a denominou Centro de Educação Popular. Para ele, este Centro deveria ser a primeira demonstração da passagem da escola de poucos para a escola de todos.

A intenção de Anísio Teixeira, era que fossem instalados, inicialmente, sete sistemas semelhantes, que seriam localizados nos bairros mais carentes de Salvador. O primeiro esquema para a distribuição destes núcleo, previa para Salvador, sete escolas. O primeiro núcleo foi construído na Caixa D’Água, bairro popular de Salvador, que tinha grande concentração de menores sem escola e até mesmo menores abandonados. Esta ainda é a realidade deste bairro.

A Escola Parque deveria oferecer à criança, em ano letivo, dias inteiros em atividades divididos em dois períodos: um de instrução seguindo o currículo escolar, nas chamadas Escola Classe; e o outro em trabalhos, educação física, atividades sociais e artísticas, na chamada Escola Parque.

A idéia era de que o Centro funcionasse como um semi-internato, recebendo os alunos às sete e meia da manhã e devolvendo-os às famílias às quatro e meia da tarde.

O espaço físico da Escola Parque foi definido através de um convênio entre Governo Federal com o Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Educação. Nesta negociação coube ao Governo do Estado a cessão do terreno cabendo ao Governo Federal a manutenção da escola e o pagamento dos professores, todos em regime de dedicação integral.

Depois disso, a Escola Parque passou exclusivamente para os cuidados do Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Educação.

Pela sua importância para pesquisas educacionais e por suas dimensões físicas, a Escola Parque - hoje Centro  Educacional Carneiro Ribeiro - ficou sendo mantida e sustentada na Bahia por um convênio entre a Secretaria de Educação do Estado com o Ministério da Educação, Cultura e Desporto (MEC), este representado pelo INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais.

Nesta época, o INEP funcionava onde é hoje Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, no bairro de São Lázaro, em Salvador. Com o fechamento do núcleo desta instituição na Bahia, pelo então diretor geral do INEP, Cel. Airton Matos, parte de suas atribuições foi destinada à Universidade Federal da Bahia e parte ficou como já estava, com o Centro Educacional Carneiro Ribeiro.

Todo projeto que visa a instrução da população é caro, assim como toda guerra é cara. A educação não pode ser barata desde que a sua consequência é a sobrevivência da população.
Anísio Teixeira

CENTRO EDUCACIONAL CARNEIRO RIBEIRO

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

 

TEIXEIRA, Anísio. Centro Educacional Carneiro Ribeiro. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.31, n.73, jan./mar. 1959. p.78-84.


Senhor Governador: 

Êste é o comêço de um esfôrço pela recuperação, entre nós, da escola pública primária.

Três pavilhões, três grupos escolares, vão ser hoje inaugurados por V. Ex.a, partes integrantes de um Centro Popular de Educação, a que houve por bem V. Ex.ª de designar Centro Educacional Carneiro Ribeiro, em homenagem ao grande educador baiano.

A construção dêsses grupos obedece a um plano de educação para a cidade da Bahia, em que se visa restaurar a escola primária, cuja estrutura e cujos objetivos se perderam nas idas e vindas de nossa evolução nacional.

Quando digo isto, Sr. Governador, não estou a aduzir um julgamento, mas, a trazer um testemunho. Há vinte e cinco anos atrás era eu o diretor de instrução do Estado em um govêrno que, como o de hoje, parecia inaugurar uma era de reconstrução para a Bahia. As escolas primárias passaram, então, por um surto de renovação e de incremento, mas, o que é digno de nota era o seu funcionamento integral, com os cursos em dois turnos, e o programa, para a época, tão rico quanto possível.

Já se podia apreciar o comêço, entretanto, de uma deterioração que se veio agravar enormemente nos vinte e cinco anos decorridos até hoje. Foi, com efeito, nessa época que começou a lavrar, como idéia aceitável, o princípio de que, se não tínhamos recursos para dar a todos a educação primária essencial, deveríamos simplificá-la até o máximo, até a pura e simples alfabetização e generalizá-Ia ao maior número. A idéia tinha a sedução de tôdas as simplificações. Em meio como o nosso produziu verdadeiro arrebatamento. São Paulo deu início ao que se chamou de democratização do ensino primário. Resistiram à idéia muitos educadores. Resistiu a Bahia antes de 30. Resistiu o Rio, ainda depois da revolução. Mas a simplificação teve fôrça para congestionar as escolas primárias com os turnos sucessivos de alunos, reduzindo a educação primária não só aos três anos escolares de Washington Luís, mas aos três anos de meios dias, ou seja ano e meio e até, no grande S. Paulo, aos três anos de terços de dia, o que equivale realmente a um ano de vida escolar. Ao lado dessa simplificação na quantidade, seguiram-se, como não podia deixar de ser, tôdas as demais simplificações de qualidade. O resultado foi, por um lado, a quase destruição da instituição, por outro, a redução dos efeitos da escola à alfabetização improvisada e, sob vários aspectos, contraproducente, de que estamos a colhêr, nos adultos de hoje, exatamente os que começaram a sofrer os processos simplificadores da escola, a seara de confusão e demagogia.

Bem sei que não é só a escola primária fantasma, que êsse regime criou, a causa da mentalidade do nosso País, mas é triste saber que, além de tôdas as outras causas de nossa singular incongruência nacional, existe esta, que não é das menores, a própria escola, a qual, instituída para formar essa mentalidade, ajuda, pelo contrário, a sua deformação.

Os brasileiros, depois de trinta, são todos filhos da improvisação educacional, que não só liquidou a escola primária, como invadiu os arraiais do ensino secundário e superior e estendeu pelo País uma rêde de ginásios e universidades cuja falta de padrões e de seriedade atingiria as raias do ridículo, se não vivêssemos em época tão crítica e tão trágica, que os nossos olhos, cheios de apreensão e de susto, já não têm vigor para o riso ou a sátira.

É contra essa tendência à simplificação destrutiva que se levanta êste Centro Popular de Educação. Desejamos dar, de novo, à escola primária, o seu dia letivo completo. Desejamos dar-lhe os seus cinco anos de curso. E desejamos dar-lhe seu programa completo de leitura, aritmética e escrita, e mais ciências físicas e sociais, e mais artes industriais, desenho, música, dança e educação física. Além disso, desejamos que a escola eduque, forme hábitos, forme atitudes, cultive aspirações, prepare, realmente, a criança para a sua civilização – esta civilização tão difícil por ser uma civilização técnica e industrial e ainda mais difícil e complexa por estar em mutação permanente. E, além disso, desejamos que a escola dê saúde e alimento à criança, visto não ser possível educá-la no grau de desnutrição e abandono em que vive.

Tudo isso soa como algo de estapafúrdio e de visionário. Na realidade, estapafúrdios e visionários são os que julgam que se pode hoje formar uma nação pelo modo por que estamos destruindo a nossa.

Todos sentimos os perigos de desagregação em que estamos imersos. Essa desagregação não é uma opinião, mas um fato, um fato, por assim dizer, físico, ou, pelo menos, de física social. Com efeito, muito da desagregação corrente provém da velocidade das transformações por que estamos passando. A própria aceleração do tempo de processo social produz os deslocamentos, confusões e subversões a que todos assistimos e a que temos de remediar. O remédio, porém, não é fácil, antes duro, áspero e difícil. A tentação do paliativo ou da panacéia, por isto mesmo, inevitável. E há os que, parece, estão convencidos da inevitábilidade da desagregação, pois de outro modo não se explica aceitarem tão tranqüilamente o paliativo que, no máximo, produzirá aquêle retardamento indispensável para lhes ser poupado assistir, individualmente, à debacle final. Pertenço, não sei se feliz ou infelizmente, ao grupo que acredita poder-se dar remédio eficaz à nossa crise, que é um aspecto da grande crise em que se acha tôda a humanidade. Êsse remédio é, entretanto, fôrça é repeti-lo, sob muitas faces, heróico, como heróico é o sentimento de defesa que nos leva a armar-nos diante do perigo.

Se uma sociedade, como a brasileira, em que se encontram ingredientes tão incendiáveis, como os das suas desigualdades e iniqüidades sociais, entra em mudança e agitação acelerada, sacudida por movimentos e fôrças econômicas e sociais que não podemos controlar, está claro que a mais elementar prudência nos manda ver e examinar as molas e instituições em que se funda essa sociedade, para reforçá-las ou melhorá-las, a fim de que suas estruturas não se rompam ao impacto produzido pela rapidez da transformação social.

Essas instituições fundamentais são o Estado, a Igreja, a Família e a Escola. De tôdas elas, não parece controvertido afirmar que a mais deliberada, a mais intencional, a mais dirigível é a escola. Teremos, assim, de procurar, mais diretamente, atuar nessa instituição básica que, de certo modo, entre nós, deverá suprir as deficiências das demais instituições, tôdas elas em estado de defensiva e incapazes de atender, com segurança e eficácia, aos seus objetivos.

Ora, se assim é, a escola tem de ganhar uma inevitável ênfase, pois se transforma na instituição primária e fundamental da sociedade em transformação, e em transformação, queiramos ou não, precipitada.

Por isso é que êste Centro de Educação Popular tem as pretensões que sublinhei. É custoso e caro porque são custosos e caros os objetivos a que visa. Não se pode fazer educação barata – como não se pode fazer guerra barata. Se é a nossa defesa que estamos construindo, o seu preço nunca será demasiado caro, pois não há preço para a sobrevivência. Mas aí, exatamente, é que se ergue a grande dúvida nacional. Pode a educação garantir-nos a sobrevivência? Acredito que responderão todos afirmativamente a essa pergunta. Basta que reflitamos, sôbre a inviabilidade da criatura humana ineducável. Nenhum de nós discute que o anormal débil mental só pode sobreviver com o auxílio externo, não lhe sendo possível produzir nem sequer nutrir-se sòzinho. Ora o educável ineducado repete o caso do ineducável. Não. Todos sabemos que sem educação não há sobrevivência possível. A questão começa depois. A questão é sôbre a escola e não a educação. É sôbre a escola que o ceticismo nacional assesta os seus tiros tão certeiros e eficazes. O brasileiro não acredita que a escola eduque. E não acredita, porque a escola, que possui até hoje, efetivamente não educou.

Veja-se, pois, em que círculo vicioso se meteu a nação. Improvisa escolas de todo jeito porque não acredita em escolas senão como formalidade social e para preencher formalidade de nada mais se precisa do que de funcionários que conheçam as fórmulas – e porque só tem escolas improvisadas e inadequadas não acredita que escolas possam ser as formadoras eficientes de uma ordem social. Ouviu dizer, está claro, que a Alemanha foi feita pelo mestre-escola, ouviu dizer que o Japão era uma nação medieval nos fins do século passado e se transformou em uma nação altamente industrializada; ouve falar em todo o progresso ocidental dos últimos duzentos anos, sobrelevando espetacularmente o dos Estados Unidos, filho todo êle da ciência e das escolas; ouve falar que a Rússia se transformou em vinte anos e para isto fêz da escola um instrumento de poder incalculável; mas tudo isto lhe parece longe ou remoto. Em volta de si, vê escolas improvisadas ou desorganizadas, sem vigor nem seriedade, alinhavando programas e distribuindo, de qualquer modo, diplomas mais ou menos honoríficos. Como acreditar em escolas? Tem razão o povo brasileiro. E para que não tenha razão seria preciso que reconstruíssemos as escolas. É êste esfôrço que se está procurando aqui começar, senhor governador. Todo mundo sabe o que é educação. Qualquer pai ou qualquer mãe pode vir dizer-nos que coisa difícil e precária é educar. Em nossas casas, todos estamos vendo como, dia a dia, fica mais difícil exercer influência educativa sôbre os nossos filhos, arrebatados, como nós próprios, na voragem de mudanças, mutações e transformações sociais sem conta. Estas dificuldades se alargam, chegam à Igreja, chegam ao Estado e todos se sentem diminuídos em suas fôrças e em suas respectivas autoridades. Só um educador profissional, preparado para o mister, com tempo e sossêgo, em uma instituição especial, como a escola, poderá arcar com a tremenda responsabilidade do momento e da época. Mas, está claro, esta instituição tem que contar com meios à altura das dificuldades crescentes de sua função.

Daí esta escola, êste centro aparentemente visionário. Não é visionário, é modesto. O comêço que hoje inauguramos é modestíssimo: representa apenas um têrço do que virá a ser o Centro completo. Custará, não apenas os sete mil contos que custaram êstes três grupos escolares, mas alguns quinze mil mais. Além disto, será um centro apenas para 4.000 das 40.000 crianças que teremos, no mínimo, de abrigar nas escolas públicas desta nossa cidade. Deveremos possuir, e já não só êste, como mais 9 centros iguais a êste. Tudo isso pode parecer absurdo, entretanto, muito mais absurdo será marcharmos para o caos, para a desagregação e para o desaparecimento. E de nada menos estamos ameaçados. Os que estão, como cassandras, a anunciar e esperar a catástrofe e a subversão, irão fazer as escolas que deixamos de fazer para a vitória do seu regime. Se o nosso, o democrático, deve sobreviver, deveremos aparelhá-lo com o sistema educativo forte e eficaz que lhe pode dar essa sobrevivência. A inauguração que, hoje, aqui se faz, alimenta essa esperança e essa ambição. Bem sei que a ambição é desmedida, mas que medida tem a sobrevivência democrática?

Uma palavra ainda sôbre a organização do que estamos a chamar de Centro de Educação Popular, organização em que apoiamos a nossa confiança em seu êxito.

Recordo-me que a construção dêste Centro resultou de ordem de V. Ex.ª, certa vez em que se examinava o problema da chamada infância abandonada. Tive, então, oportunidade de ponderar que, entre nós, quase tôda a infância, com exceção de filhos de famílias abastadas, podia ser considerada abandonada. Pois, com efeito, se tinham pais, não tinham lares em que pudessem ser educados e se, aparentemente, tinham escolas, na realidade não as tinham, pois as mesmas haviam passado a simples casas em que as crianças eram recebidas por sessões de poucas horas, para um ensino deficiente e improvisado. No mínimo, as crianças brasileiras, que logram freqüentar escolas, estão abandonadas em metade do dia. E êste abandono é o bastante para desfazer o que, por acaso, tenha feito a escola na sua sessão matinal ou vespertina. Para remediar isso, sempre me pareceu que devíamos voltar à escola de tempo integral.

Tracejei, então, o plano dêste Centro que V. Ex.ª ordenou fôsse imediatamente iniciado. A escola primária seria dividida em dois setores, o da instrução, pròpriamente dita, ou seja da antiga escola de letras, e o da educação, propriamente dita, ou seja da escola ativa. No setor instrução, manter-se-ia o trabalho convencional da classe, o ensino de leitura, escrita e aritmética e mais ciências físicas e sociais, e no setor educação – as atividades socializantes, a educação artística, o trabalho manual e as artes industriais e a educação física. A escola seria construída em pavilhões, num conjunto de edifícios que melhor se ajustassem às suas diversas funções. Para economia tornava-se indispensável que se fixasse um número máximo para a matrícula de cada centro. Pareceu-nos que 4.000 seria êsse número, acima do qual não seria possível a manipulação administrativa.

Fixada, assim, a população escolar a ser atendida em cada centro, localizamos quatro pavilhões, como êste, para as escolas que chamamos de escolas-classe, isto é, escolas de ensino de letras e ciências, e um conjunto de edifícios centrais que designamos de escola-parque, onde se distribuiriam as outras funções do centro, isto é, as atividades sociais e artísticas, as atividades de trabalho e as atividades de educação física. A escola-classe aqui está: é um conjunto de 12 salas de aula, planejadas para o funcionamento melhor que fôr possível do ensino de letras e ciências, com disposições para administração e áreas de estar. É uma escola parcial e para funcionar em turnos. Mas virá integrá-la, a escola-parque. A criança fará um turno na escola-classe e um segundo turno na escola-parque. Nesta escola, além de locais para suas funções específicas, temos mais a biblioteca infantil, os dormitórios para 200 das 4.000 crianças atendidas pelo Centro e os serviços gerais e de alimentação. Além da reforma da escola, temos o acréscimo dêsse serviço de assistência, que se impõe, dadas as condições sociais. A criança, pois, terá um regime de semi-internato, recebendo educação e assistência alimentar. Cinco por cento dentre elas receberão mais o internato. Serão as crianças chamadas pròpriamente de abandonadas, sem pai nem mãe, que passarão a ser não as hóspedes infelizes de triste orfanatos, mas as residentes da escola-parque, às quais competirá a honra de hospedar as suas colegas, bem como a alegria de freqüentar, com elas, as escolas-classe.

Não poderei entrar aqui em detalhes do funcionamento, um tanto complexo, do centro, nem das dificuldades naturais da constituição do seu numeroso e variado corpo docente. Consitam-me, entretanto, uma observação. A maior dificuldade da educação primária, que, por sua natureza, é uma educação universal, é a de se obter um professor primário que possa atender a todos os requisitos de cultura e aptidão para um ensino tão vasto e tão diversificado. A organização do ensino primário em um centro desta complexidade vem, de certo modo, facilitar a tarefa sobremodo aumentada da escola elementar. Teremos os professores primários comuns para as escolas-classe, para a escola-parque, os professores primários especializados de música, de dança, de atividades dramáticas, de artes industriais, de desenho, de biblioteca, de educação física, recreação e jogos. Em vez de um pequenino gênio para tudo isto, muitos professôres diferenciados em dotes e aptidões para a realização da tarefa sem dúvida tremenda de formar e educar a infância nos seus aspectos fundamentais de cultura intelectual, social, artística e vocacional.

A escola primária terá, em seu conjunto, algo que lembra uma pequenina universidade infantil. Mas, de nada menos, repito, precisamos em nossa época, para ficarmos à altura das imposições que o progresso técnico e científico nos está a impor. Queiramos, ou não queiramos, vamo-nos transformar de uma sociedade primitiva em uma sociedade moderna e técnica. Os habitantes dêste bairro da Liberdade deixam um estágio anterior aos tempos bíblicos de agricultura e vida primitiva para imergirem em pleno báratro do século vinte. Ou organizamos para êles instituições capazes de lhes preparar os filhos para o nosso tempo, ou a sua intrusão na ordem atual terá o caráter das intrusões geológicas que subvertem e desagregam a ordem existente. O problema da educação é, por excelência, o problema de ordem e de paz no País. Daí, as linhas aparentemente exageradas em que o estamos planejando.

Obs.: Discurso pronunciado na inauguração do Centro Educacional Carneiro Ribeiro.

 

Miguel Mensitieri

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

 MIGUEL ANGELO MENSITIERI ALMEIDA

Baiano de Jitaúna

Tem quatro livros prontos para publicação. Funcionário da Assembléia Legislativa do Estado da Bahia há 24 anos e desenvolve atividade técnica na área de criação e revisão de textos. É revisor e redator. Atividades nas áreas de literatura, teatro, música, literatura de cordel e crítica literária.

Paulo Fortes

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Paulo de Paiva Fortes, nasceu em 7 de fevereiro de 1923, carioca da Rua do Riachuelo, bisneto de Cândido Barata Ribeiro, 1º Prefeito do Rio de Janeiro, filho de Auto Barata Fortes e Zélia de Paiva Fortes. Paulo Fortes Estudou no Colégio São Bento e bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Rio de Janeiro (1948). Na Faculdade de Direito participou do Teatro Universitário (TU), dirigido por Gerusa Camões, em diversas peças de teatro e também na Viúva Alegre. O Mº José Torre o viu neste espetáculo e o levou a estudar com Gabriella Besanzoni. Em junho de 1945, D. Gabriella se despedia da carreira e o apresentava em um concerto no Teatro Municipal e na Rádio Gazeta de São Paulo. Neste mesmo ano, em 5 de outubro, estreava no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em La Traviata. Ele considerava esta data como a de sua estréia profissional. Estudou com: Gabriella Bezanzoni, Murillo de Carvalho, Pina Monaco e Flaminio Contini em Florença. Atuou em todas as manifestações de arte: Teatro, Cinema, Televisão. Sua preferência foi a música com a ópera o absorvendo. A crítica escreveu: “O grande êxito da noite, porém, coube a Paulo Fortes, jovem barítono brasileiro, de apenas 22 anos. Desde que pisou a cena, encarnando o velho “Germont”, causou a melhor impressão pelo seu porte, suas maneiras, bem longe de revelar o estreante que ele era. E foi essa impressão que avolumou durante o seu trabalho, até atingir o “clímax” tão famoso em “De Provença.” Sua voz linda, maleável, pura, voz capaz de torná-lo célebre. Não tem, ainda nos graves, o suficiente corpo, o que se explica a sua pouca idade. No mais, porém, revelou as maiores possibilidades canoras e os mais acentuados pendores cênicos. O público entusiasmou-se ante aquele artista jovem e espontâneo. Aclamou-o em delírio, na crença de que será ele, um dia, uma grande figura da arte lírica mundial. É o caso de dizer: amém. Deus permita que não falhe esta esperança. Paulo Fortes tem futuro a desbravar, tem um destino a cumprir. Que não lhe faltem os meios para atingi-lo.” Diário de Notícias, 7 de Outubro de 1945. Foi também o artista que mais vezes atuou no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.Participou como ator em diversos filmes e em diversos programas de televisão. Fez vários recitais de câmara. Gravou vários discos: O Guarani completo e trechos da Fosca, ambas de Carlos Gomes, Canções, e Serestas. Sempre se destacou também como ator, dominando os palcos com facilidade nos mais difíceis e variados personagens como: “O Barbeiro de Sevilha” e “Italiana na Argélia”, de Rossini; “Falstaff”, “Aída”, “O Trovador”, “Rigoletto” e “La Traviata”, de Verdi; “La Bohéme”, “Madama Butterfly”, “Turandot” e “Gianni Schicchi”, de Puccini; “O Elixir do Amor” e “Don Pasquale”, de Donizetti; “Andrea Chenier”, de Giordano; “Carmen” e “Os Pescadores de Pérolas”, de Bizet; “Cosi Fan Tutti”, de Mozart; “O Chalaça”, “O Contratador de Diamantes” e “O Sargento de milícias”, de Francisco Mignoni; “Izath” e “Menina das Nuvens”, de Villa-Lobos; “Pedro Malazarte” e “Um Homem Só”, de Camargo Guarnieri; “O Guarani”, “Salvador Rosa” e o “Poema Sinfônico Coral Colombo”, de Carlos Gomes. Não podem ser esquecidas as suas interpretações em “Os Palhaços”de Leon Cavallo e “Le coq d’or”, de Rimsky-Kosakov. Também na música contemporânea obteve grande sucesso no Rio de Janeiro e em São Paulo interpretando “Eight songs for a mad King” de Peter Maxwell Davies, com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Esteve sob a batuta de grandes Maestros como; Tullio Serafin, Antonino Votto, Bruno Bartoletti, Emidio Tieri, Edoardo De Guarnieri , Franco Ghione, Francesco Molinari Pradelli, Henrique Morelenbaum, Nino Stinco, Nino Verchi, Isaac Karabtchevsky, Nino Gaione, Olivero de Fabritis, Romano Gandolfi, Umberto Berretoni, Tino Cremagnani, Vittorio Guy e tantos outros. Atuou ao lado de renomados artistas como: Antonietta Stella, Branca Rosa Baigorry, Elena Arismendi, Elizabetta Barbato, Elena Mauti Nunziata, Laura Londi, Magda Olivero, Margarett Mass, Norina Greco, Pia Tassinari, Renata Tebaldi, Virginia Zeani, Victoria de Los Angeles, Elena Nicolai, Alvino Misciano, Adelio Zagonara, Beniamino Gigli, Cesare Valetti, Ferruccio Tagliavini, Giuseppe Di Stefano, Gianni Poggi, Giacinto Prandelli, Gianni Raimondi, Mario Del Monaco, Ramon Vinay, Gino Becchi, Giuseppe Taddei, Giangiacomo Guelfi, Tito Gobbi, Arnold Van Mill, Agostino Ferrin, Boris Christoff, Giulio Neri, Rossi Lemeni. Promoveu a colocação da estátua de Carlos Gomes - maior compositor operista da América do Sul – defronte ao Theatro Municipal, na Cinelândia. Nesta época um crítico escreveu que a arte não tinha pátria e ele retrucou dizendo que: “A arte não tem pátria, mas o artista tem.” Foi professor da Escola de Canto Lírico Carmem Gomes, do Theatro Municipal. Paulo Fortes faleceu em 09 de janeiro de 1997. Fonte: http://www.paulofortes.mus.br

Carybé

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

 

Hector Julio Páride Bernabó, artisa plástico que sempre se assinou carybe, nasceu em Lanús, na Argentina, em 1911, Naturalizou-se brasileiro em 1957, Famoso por sua dedicação ao folclore braiano,  abordados de maneira estabilizada, Carybé morreu em Salvador, em 1º de outubro de 1997.

Arte
O Compadre dá adeus a Joinville
Exposição de Carybé, pintor argentino, atraiu 1,2 mil pessoas
A exposição “O Compadre de Ogum”, do pintor argentino Carybé, encerrou-se no sábado com cerca de 1,2 mil visitantes. Em média, uma mostra na Galeria Victor Kursancew (onde estava sediada a exposição) reúne o dobro do público. Mas raramente são mostradas no local telas de um artista internacionalmente conhecido como Carybé – o único grande amigo de Jorge Amado que já teve obras expostas na cidade. Um fracasso? Não para o joinvilense Gerson Machado, do terreiro Ile Ase Oju Orun. “A exposição foi um enorme sucesso, por trazer à tona uma discussão qualificada e necessária.”
A discussão citada por Gerson nada tem a ver com as técnicas empregadas pelo compadre Carybé em seus desenhos ou se ele era mais baiano que argentino. O que gerou polêmica foi a ligação do artista com o candomblé.
Segundo os organizadores da mostra, o preconceito em relação aos cultos afro-brasileiros foi o principal motivo da baixa visitação de “O Compadre de Ogum”. “Não tivemos nenhum protesto explícito. Mas acredito que muitas pessoas tenham receio de ser vistas na exposição por colegas da igreja, por exemplo”, opina a diretora da galeria, Maria Helena Scaglia.
Hector Julio Páride Bernabó, o Carybé, morreu em 1997, aos 86 anos, durante uma sessão no terreiro Ilê Axê Opô Afonjá, em Salvador. Seu orgulho era o título de Obá de Xangô, o posto mais alto dado pelo candomblé. As serigrafias de “O Compadre de Ogum” foram feitas a partir de aquarelas que ele produziu para um especial da Rede Globo sobre o romance “Os Pastores da Noite”, de Jorge Amado.
A contadora de histórias Elaine Mendes Meira, que narrava a trama de Jorge Amado para as crianças que visitavam a exposição, afirma que jamais viu algum visitante indignar-se com as referências ao candomblé. “Todos que estiveram aqui saíram maravilhados com a obra de Carybé. As pessoas que criticaram as serigrafias nem chegaram a vê-las”, diz.
Amarilis Laurenti, gerente de patrimônio, ensino e arte da Fundação Cultural de Joinville, explica que os méritos da exposição extrapolaram suas qualidades artísticas. “Com a exposição, mostramos que a cidade não deve apenas respeitar a cultura germânica. Deve respeitar a cultura brasileira.”

O SOM QUE SAI DO SOL

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

                           

 

                                                                     ( Letra: Miguel Mensitieri )

                                    O som que sai do sol

                                    pode ser o da criação,

                                    penetra todas as notas

                                    que compõem uma canção.

                                    O som que sai do sol

                                    cobre campos e cidades,

                                    invade ruas e casas,                                                 

                                    rompe a manhã da saudade;

                                    o som que sai do sol

                                    não se esvai com a tarde.

                                    É um som que se espalha

                                    numa escala infinita,

                                    e entre versos e rimas

                                    inteiro se identifica.

                                   O som que sai do sol

                                   é o mesmo que aqui planto

                                   como quem planta a semente

  de um som que é de toda gente.

O SOM QUE SAI DO SOL

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Os festivais de música popular têm revelado grandes talentos, e o I FESTSOL  ( 1º Festival Ensaios da Terra do Sol – O Som que sai do Sol ) poderá modelar na argamassa musical novos rebentos sob um clima que invade as raízes melódicas da península ibérica cruzando-as com os ritmos africanos para, num retoque final, aplicar o matiz impressionista da harmonia brasileira; nesse sonoro planetário, o poente se funde com a  nota musical.

Não se deve deixar de lado a plasticidade dos acordes. Quando o músico domina seu espaço e torna-se repetitivo, ainda que ágil na execução do seu instrumento, tudo fica tão claro e monótono que a imaginação ousa tatear uma perspectiva sem conexão com  sistemas conhecidos, e o artista sob incontrolável impulso segue ao encontro da antítese  (composição à margem do convencional), que poderá despertar a platéia ao toque do inusitado.

A música pode até sugerir a presença de certos sentimentos, mas está acima de qualquer preconceito; ela confere intensidade ao lirismo e à dramaticidade.  Quanto aos valores morais que saltam de alguns versos, tal fato parece fragilizar a idéia de que a musicalidade é inatingível moralmente. Segundo Thiago Gondim e César Almeida, dois agentes culturais profundamente envolvidos na organização do FESTSOL, qualquer expressão musical será bem-vinda.

É bom lembrar que a explosão de valores contestatórios da década de sessenta teve como base os festivais de música popular, num período em que se misturavam a esquerda festiva, a combativa, os livres pensadores e vários segmentos explorados pelos senhores do capital que, por sua vez, trocavam figurinhas e outras coisas mais com a sangrenta ditadura militar ora em plena atividade. Aqueles festivais registraram não só artistas de alto nível, senão também movimentos político-sociais que, anos depois, organizaram-se e consolidaram de vez a democracia em nosso País. De Geraldo Vandré a Caetano Veloso; de Para não Dizer que não Falei das Flores a Alegria, Alegria, os caminhos ideológicos cruzavam-se, como se a sensibilidade de um século inteiro explodisse numa década, provocando grandes transformações; época de intensa concentração de estímulos sobre os espíritos, sobretudo os revolucionários. Dificilmente teremos nas primeiras décadas do atual século festivais como aqueles dos anos sessenta. Não há em perspectiva cenário de mudanças radicais capaz de levar às ruas grupos organizados de militantes políticos de esquerda; já não se vê um teatro que alcance qualquer platéia; já não se ouvem os tiros da violência politizada nas telas dos cinemas, pois quase não existem cinemas, nem velhos nem novos, o que há é a violência banalizada e a televisão que sobrevive em parte deste processo destrutivo e bestial, mostrando em formas melodramática e tragicômica um país de assaltantes, drogados e corruptos entre imagens estereotipadas para exportação. Sobre todo esse caos sobrevive o saudosismo, sentimento em estertor que não produz um grama de adrenalina.

As novas gerações prometem recriar com atos e palavras os ecos culturais do século XX, assim, teremos no horizonte de maio deste ano o FESTSOL, um festival de música popular muito bem estruturado.

Obviamente, diante desse futuro quadro lítero-musical, podemos afirmar que um festival é universo que se recompõe periodicamente com a mesma matéria de que é formado: artistas, agentes da cultura, instituições patrocinadoras, mídia e artistas; universo sonoro em transformação, quando se trata da produção artística, e que se multiplica em Feira de Santana, Vitória da Conquista, Irecê, Lapa, Salvador, Juazeiro e várias outras cidades. Já houve importantes festivais em Jequié, e em maio surgirá mais um: O FESTSOL– evento que pretende recuperar a memória de excepcionais compositores, cantores, instrumentistas e poetas não só filhos de Jequié, mas de outras regiões.

                                         Miguel Mensitiere

Poesias campeãs

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

      

GRAMATICAL  CANÇÃO
 
 
                                                               ( Miguel Mensitieri )
 
 
 (1º lugar no Concurso Germano Machado de Poesia - Salvador-Ba. 2003 )
 
 
 
                          Nascer com o sol
                          de um substantivo maior
                          e adjetivar um acorde
                          com a tônica forte de fé.
 
                          Pôr um traço de união
                          entre as pessoas do verbo
                          e coordenar as idéias
                          para atenuar períodos
                          compostos por subordinação.
 
                          Romper elos,
                          libertar interjeição
                          e guardar a chave
                          na cedilha da ação.
 
                          Preposicionar um espaço
                          para a conjunção dos astros,
                          onde o sujeito,
                          oculto na oração,
                          possa aparecer inteiro
                          entre os verbos desta canção.
 
 
 
 
 
 
 
                                    
    CORTE
 
 
 
                                                                    Miguel Mensitieri
 
 ( 1º lugar no Concurso Germano Machado de Poesia - Salvador-Ba -2003 )
 
                                       
                     Drama de vôo 
                                          não é por falta de ar,
                                          vem de ser pássaro na vontade
                                          e não decolar;
                                          ser gente na esperança
                                          e não pousar;
                                          ser pele na lembrança
                                          e não suar.
 
                                          A extensa pista
                                          transpira formas e movimento,
                                          como se luz e metal
                                          fossem necessários
                                          à inspiração;
                                          como se do ronco das turbinas
                                          a composição dramática 
                                          de uma viagem.    
 
 
 
 
 
                           SUBSTANTIVO FEMININO
 
 
                                        Miguel Mensitieri
 
 ( 1º lugar no Concurso Germano Machado de Poesia - Salvador - Ba -2003 )
 
 
 
 
                                           Um espaço físico
                                            é diferente de fico.
                                           De nada vale
                                           a semelhança sonora
                                           e a perfeita linha rítmica
                                           se lá como aqui
                                           incompleto existo.
                                           Todas as fómulas
                                           não estão para tirar-me
                                           do mesmo vão.
                                           Tanto faz pesar a matéria
                                           como transmutar o sentido,
                                           não é questão de lógica e semântica,
                                           mas de PAZ.
 
 
 
 
 
                                        DOIS  EM  UM
 
 
                                                                        Miguel Mensitieri
 
 
            ( 1º lugar no Concurso Germano Machado de Poesia - Salvador-Ba. 2003 )
 
 
 
                                             Dois corpos:
                                 o primeiro é irrequieto.
                                 o segundo,
                                             qual lâmina,
                                             brilha estático e certo.
                                 Um
                                             parece ter plena noção
                                             do desprendimento,
                                             liquefaz tremores,
                                             dobra a vontade,
                                             captura a linha
                                             e molda uma meta;
                                  o outro,
                                             tal istmo umbilical,
                                             observa e reflete.
 
 
 
 
                                    
                                MARGENS & IMAGENS
                                                                                                                      
                                                                                Miguel Mensitieri
 
( 1º lugar no Concurso Germano Machado de Poesia-Salvador-Ba-2003 )    
 
 
                                        A rima como recurso sonoro  
                                       não minimiza a expressão de dor,
                                       quando muito tonifica as violas
                                       ao apelo ribeirinho.
                                       Eu queria compor o curso das águas,
                                       onde o corpo dramático
                                       se transmutasse em rio-poema
                                       e, como tal, abrisse suas margens
                                       a afluentes salvadores.
 
                                       Assim como planto a vontade
                                       entre o húmus que floresce
                                       para o sustento do homem,
                                       tento nadar em ritmo certeiro
                                       contra a fúria predatória,
                                       mas sou assoreado
                                       em meio a tocos de madeira
                                       e restos de produtos químicos.
 
                                                                    
                                       Outra é a química dos versos
                                       e se contamina
                                       traz o antídoto na primeira tônica;
                                       outra é a água do poema
                                       – sacia os ouvidos e irriga o solo
                                       das conotações. Mas é no rio
                                       que a vida bebe e do seu vale
                                       colho livre expressão.

I M P R E S S Õ E S

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

            

  O clichê de país exótico aplicado ao Brasil, se por um lado age como fator de desalento para os que sonham singular estética, por outro, serve aos propósitos mercantilistas que têm como suporte o discurso publicitário, com seu eficaz poder de argumentação afetiva.   A exportação das nossas multicoloridas banalidades reduz o país a um quilométrico sanduíche de mulatas, escolas de samba, futebol, praias, floresta tropical e nativos indolentes. Tal atitude reducionista é concessão aos baixos  instintos, basta verificar as denúncias sobre a indústria do turismo sexual, com o crescimento da prostituição infanto-juvenil. Desta perspectiva, assiste-se passivamente à implantação de prostíbulos que, lenta e gradualmente estrelados, poderão assumir dimensão continental, com ênfase na pedofilia.                       A imagem do exótico aparece em citações e teses sobre o Brasil, minimizando-o no que diz respeito aos novos parâmetros do conhecimento. Indiscutivelmente, nossa produção cultural traz em seu bojo elementos transformadores, até mesmo no confronto com a estética da miséria social, e isto não representa o exótico e o mágico. Consagrados críticos norte-americanos e europeus abordam superficialmente a Semana da Arte Moderna, deste período em diante, poucos poetas e escritores são lembrados. Há certa indiferença por nossas instituições culturais e até pelo avanço da literatura a partir de Machado de Assis, seu mais representativo cânone. A presença de uma política cultural capaz de minimizar as barreiras lingüísticas que inibem a expansão do nosso idioma é fundamental, e a conquista do Nobel por José Saramago foi importante passo neste sentido. Regionalizando o discurso, devo dizer que os representantes da Academia de Letras de Jequié podem realizar novas publicações através de incentivos fiscais destinados à produção cultural, fruto de acordo firmado entre governo e iniciativa privada e que indica resultado positivo acima do previsto. A Academia, para sair do marasmo caracterizado por esporádico lançamento de livros e raros concursos, deve promover ampla discussão sobre cultura. Há um aspecto elitista que parece estratificar essa instituição, projetando-a como algo acima do bem e do mal, imobilizando-a como se templo consagrado ao saber absoluto. Tal caráter inibe eventual contato entre a produção acadêmica e o público. Urge democratizá-la literalmente, popularizar o espaço das relações interpessoais; necessário dissipar certo ranço aristocrático, incompatível  com o avanço do humanismo. Muitos acadêmicos percebem que a atividade intelectual, entre outros propósitos, visa à eliminação de estereótipos para a superação da consciência ingênua, mas, paradoxalmente, afastam-se da missão de varrer preconceitos, deixam-se estereotipar. Quanto ao potencial de criatividade, creio que não basta o talento puro, é preciso transpor os limites do orgânico; não é fácil registrar e sistematizar o sentido da experiência, sem apoio de sólido conhecimento sobre a matéria de que se trata. Por outro lado, os títulos acadêmicos não são suficientes se o laureado não se abre ao ritmo da intuição nem exercita a capacidade de decodificar uma composição.                                               

 Miguel Mensitieri

Jequié, outubro/2002