
O clarinetista Paulo Moura e o cantor pernambucano Josildo Sá lançam o inspirado CD ‘Samba de latada’
Ana Cristina Pereira
O encontro pouco provável entre o consagrado clarinetista Paulo Moura e o cantor pernambucano Josildo Sá, ainda desconhecido da maioria, rendeu o inspirado disco Samba de latada (Rob Digital). Eles se conheceram há cinco anos, naquele contexto de admirador que vai em busca de um aval de peso para seu trabalho. Paulo Moura gostou do que ouviu, estreitou o diálogo e ainda topou fazer algo difícil em sua carreira – servir de acompanhamento a um artista, num disco não instrumental. Ainda assinou a direção musical e alguns arranjos.
“Assim, dessa forma, é a primeira vez”, afirmou Paulo, em conversa por telefone do Rio de Janeiro. O músico, que também está relançando um disco em homenagem a Caymmi (ver boxe), explica que evitou este tipo de parceria, por achar que acabava “perdendo a identidade”. Josildo Sá, que inicialmente só pensava numa participação, ficou lisonjeado com a proposta. O resultado é um encontro musical empolgante, que resgata uma vertente meio esquecida do forró, o samba de latada, também conhecido como samba de matuto.
Numa definição rápida, seria o samba com a ginga do forró, acrescido de instrumentos como zabumba, triângulo e a sanfona, que floresceu, sobretudo, no sertão pernambucano. “A latada, no caso, era uma extensão da casa, coberta por folhas de flandres, onde aconteciam os forrós, ou sambas”, escreve, no encarte do disco, o jornalista e pesquisador José Teles. Teve intérpretes como Jackson do Pandeiro, Gordurinha e Luiz Gonzaga, e nos últimos anos vem sendo resgatado por vários artistas.
Josildo Sá, 42 anos e dois discos solo no currículo, é um deles. Ele lembra que muitos artistas já flertaram com o samba de latada, mas não deram tanta ênfase à denominação. O disco foi gravado após o Carnaval do ano passado, quando Paulo e Josildo fizeram algumas apresentações juntos, estreitando a sonoridade. Com a participação de Paulo Moura, o ritmo ganhou parentesco com a gafieira e ficou ainda mais sacudido com cavaquinho, pandeiro, baixo e o indefectível clarinete do carioca. A sanfona ficou a cargo de Gennaro (ele e Paulo Moura assinam a faixa Baile no sertão) e há a participação de Arlindo dos Oito Baixos, que Josildo define como um mestre popular.
O repertório resgata o bom humor e a picardia do forró, mas bem longe da baixaria dominante no gênero atualmente. Músicas como Quixabinha (Josildo Sá e Anchieta Dali), Eu gosto de você (Caçote do Rojão) e Cumpade Zé de Bina (Apolônio da Quixabinha), que dão vontade de sair por aí sacolejando. Forró do Mané Vito (Luiz Gonzaga e Zé Dantas) e Pra virar lobisomem (Cecéu) são as únicas conhecidas do repertório e ganharam releitura dentro da proposta do projeto. Ou seja, ficaram bem mais sacudidas do que as versões originais.
Paulo Moura assume a intenção de aproximar o samba de latada com a gafieira, na qual transita com maestria. “Os dois são música para dançar, muito populares. Até os ricos que gostam de pobreza curtem”, alfineta o artista. O disco, continua, lhe permitiu repetir o formato clarineta + sanfona, que já tinha experimentado num projeto com João Donato no passado. Há apenas duas faixas instrumentais, Pro Paulo (Chico Chagas) e Baile no sertão (Paulo Moura e Gennaro).
Em setembro ou outubro, a dupla deve lançar o disco em São Paulo e no Rio de Janeiro, com uma banda formada por músicos pernambucanos. O primeiro compromisso agendado é uma apresentação em Vitória, dia 27 de outubro, na programação do TIM Festival. “É para fazer o som com a cara do Nordeste”, diz Paulo, que torce para mostrá-lo a outras capitais.
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FICHA
Disco: Samba de latada
Artista: Paulo Moura e Josildo Sá
Gravadora: Rob Digital
Preço: R$22
