17/7/07 - Os ministros do Meio Ambiente do Brasil, Marina Silva, e da República Democrática do Congo, Didace Pembe prometeram ampliar o apoio aos povos tradicionais que querem desenvolver empresas comunitárias de base florestal sustentável. Os dois países possuem as maiores reservas de floresta tropical do mundo. Apesar da riqueza natural, as populações que vivem nessas florestas nativas enfrentam situações drásticas com rendimentos muitas vezes inferiores a um dólar por dia.
O compromisso dos ministros foi assumido em palestras distintas feitas durante a conferência mundial sobre empreendimentos comunitários florestais que vai até a próxima sexta-feira em Rio Branco (AC). O evento, organizado pela Organização Internacional de Madeiras Tropicais (ITTO) e Rights and Resources Initiative (RRI) reúne 250 representantes de empresas comunitárias de 40 países. A conferência tem o apoio dos governos do Brasil e do Acre.
Na abertura do evento, a ministra do Meio Ambiente do Brasil, Marina Silva, foi enfática ao afirmar que as comunidades tradicionais que subsistem nas florestas nativas serão priorizadas no plano de uso das florestas públicas criado pelo Serviço Florestal Brasileiro. A ministra sugeriu ainda a criação de um fundo temático a ser gerido pela ITTO com recursos dos governos dos países-membros da organização. O fundo serviria para financiar projetos de desenvolvimento sustentável para comunidades das florestas tropicais.
O estudo coordenado pela diretora de Comunidades e Mercados do Rights and Resources Initiative (RRI), Augusta Molnar, identifica que, dos 193 milhões de hectares de florestas nativas pertencentes ao governo brasileiro, 60 por cento estão nas mãos das comunidades tradicionais. Segundo o estudo, o Brasil tem condições de se tornar uma liderança no manejo florestal de base comunitária na América Latina, a exemplo do que já ocorre na Guatemala e no México. A pesquisa avaliou experiências de manejo comunitário em países tropicais da África, Ásia e as Américas.
Em todo o mundo, as empresas florestais comunitárias tornam-se uma força significativa, particularmente em termos do impacto sobre a economia das nações pobres, conforme descrito no estudo da ITTO/RRI. Tais comunidades manejam 11 por cento das florestas naturais do mundo. Nos países em desenvolvimento, esse índice sobe para 22 por cento.
O estudo sugere que tais empresas podem gerar uma grande quantidade de produtos e serviços à medida que reduzem a pobreza entre as populações locais, ajudam a conservar a biodiversidade e atraem investimentos em infra-estrutura social, incluindo escolas e serviços de saúde.
Didace Pembe, da República Democrática do Congo, quer um acordo com o Brasil para trocar de experiência e tecnologia em manejo florestal comunitário. “O Brasil pode inspirar modelos de uso sustentável das florestas da África porque há vários avanços no país, a exemplo das reservas extrativistas, que já somam dez milhões de hectares em território brasileiro”, disse Augusta Molnar, da RRI.
Pembe afirmou também que promoverá um amplo estudo para levantar a situação das florestas do Congo e das comunidades que vivem em seu interior. Segundo ele, o país precisa criar estruturas para encorajar as comunidades a estabelecer empresas florestais para o uso sustentável dos recursos naturais como uma forma de reduzir a pobreza das populações tradicionais e desenvolver o mercado de produtos oriundos das florestas.
Segundo o ministro africano, a aliança política entre os dois países serviria também para fazer frente à pressão pela preservação ambiental. “Queremos que os países desenvolvidos paguem pelos serviços ambientais que nossas florestas produzem para toda a comunidade internacional”.
O diretor-executivo da ITTO, Manoel Sobral, considera que as propostas dos dois ministros durante a conferência mostram que os governos dos países entenderam definitivamente o papel das empresas e organizações comunitárias na manutenção das florestas e diminuição da pobreza por meio do uso sustentável dos recursos naturais. Sobral ressaltou que as barreiras burocráticas e a falta de acesso a financiamentos em países com potencial de uso das florestas terão de ser superadas para que as comunidades tenham, de fato, o direito sobre o uso dos recursos naturais.
A ITTO é uma organização intergovernamental que promove a conservação ambiental e o manejo sustentável, bem como o uso e o comércio de recursos florestais. Seus 60 países membros representam cerca de 80% das florestas tropicais do mundo e são responsáveis por mais de 90% do comércio global de madeiras tropicais.
A política de trabalho da ITTO enfatiza tanto o reflorestamento quanto a necessidade de as decisões sobre o uso das florestas estarem baseadas em processos participativos, igualitários e que envolvam as comunidades locais. A ITTO também dá assessoramento sobre como implantar esses processos. Como parte de seu plano de trabalho, a ITTO vem assessorando muitas pequenas comunidades florestais a implantar empreendimentos baseados no uso sustentável da floresta. Para mais informações, por favor, visite www.itto.or.jp
A Iniciativa para Direitos e Recursos (Rights and Resources Initiative, RRI) é uma nova coalizão de organizações dedicada conscientizar, em nível global, sobre a necessidade premente de reformas na posse de terras florestais, nas políticas públicas e nos mercados, para alcançar metas globais na redução da pobreza, na conservação da biodiversidade e no crescimento econômico baseado no uso sustentável das florestas.
Seus atuais parceiros incluem a Associação Centro-americana Indígena e Campesina de Silvicultura Comunitária (Coordinating Association of Indigenous and Community Agroforestry in Central America, ACICAFOC); o Centro Internacional para a Pesquisa Florestal (CIFOR, Center for International Forestry Research); Resposta Cívica – Fundação para o Desenvolvimento de Pessoas e de Comunidades (Civic Response – the Foundation for People and Community Development, FPCD); o Programa para os Povos da Floresta, Tendências Florestais, Centro Mundial de Silvicultura (Forest Peoples Programme, Forest Trends, the World Agroforestry Center, ICRAF); a Intercooperação, União Mundial para a Natureza (World Conservation Union, IUCN,); o Centro de Capacitação Regional de Silvicultura Comunitária para a Ásia e o Pacífico (Regional Community Forestry Training Center for Asia and the Pacific, RECOFTC). Para mais informações, por favor, visite www.rightsandresources.org. ”
MWEWA LUMBWE
Presidente/CBNERD
